Como conquistar essa garota


                                  Pedro Bandeira




         Olhar, espelho do desejo

         Confesso que, de tanto observar o Rafael, esse rapazinho magro,
de culos, que
sorri todas as vezes em que no tem nenhuma resposta para o que lhe 
dizem, acabei
realmente gostando dele. E olhe que h muito mais para se observar nessa 
praia de final
de outono, mas ainda quente. Veja que o sol brilha livre pendurado nesse 
cu de azul
pesado, sem qualquer floco de nuvem para disfarar. Venha comigo. Venha 
olhar comigo.
         Venha olhar sem razo alguma, s olhar, esporte preferido de 
quem vive na
cidade, onde h tanto e nada h para se ver. Acho que a nica 
alternativa natural 
psicanlise  poder relaxar a retina, olhando as ondas a desfazerem-se 
na areia, ou
aliviar os tmpanos, prestando ateno ao esfregar-se das palhas dos 
coqueiros, como
casais debaixo de lenis. Estranha essa humanidade! Lutou durante 
milnios para se
livrar da vida selvagem, descobriu tanta coisa, inventou a ambio, 
batalha todos os dias
para acumular bens tecnolgicos e, sempre que conseguimos alguma 
folguinha, tudo o
que desejamos  correr quase pelados pela areia de uma praia ou acampar 
no meio de
bosques, s para acordar ouvindo o canto dos pssaros e vagar livres no 
meio da mata.
Por que tanto esforo para fugir da vida natural, se s sentimos prazer 
de verdade quando
voltamos a ela?
          E  isso o que aquele grupo de amigos faz agora. Vindos da 
maior cidade do
pas, aquela que contm dez por cento de toda a populao do Brasil, 
paulistanos natos
ou adotados que produzem cinqenta por cento do barulho, da violncia e 
da sujeira
nacional, esses colegas do primeiro colegial aproveitaram um feriado de 
quinta-feira para
voltar  natureza por quatro dias inteirinhos.
          Essa  uma praia rara, distante das praias da moda, com um 
espao no muito
extenso de areia branca e grossa, das que rangem sob as solas dos ps, 
cercada por
rochedos arredondados de tanto levar surras do mar. E que mar! Furiosas 
por verem
invadido um dos poucos recantos onde podiam se espatifar longe de 
olhares curiosos, as
guas levantam-se em ondas de protesto, ideais para quem peita o desafio 
e gosta de se
arriscar em cima de uma prancha.
          A turma do Rafael est aqui porque descobriu esse pequeno 
acampamento de
frias, baratssimo por ser fim de temporada, mas a descoberta no foi 
exclusiva. Duas ou
trs outras pequenas tribos de jovens como eles tambm esto aqui, 
aproveitando esse
esconderijo da civilizao.
          E a esto eles. Veja. Observe junto comigo as tribos agora j 
meio enturmadas,
onde bandos seminus esgotam suas energias de tanto o que h a fazer 
quando no se
tem nada para fazer. Veja que lindas meninas, seios mal cobertos, 
traseiros menos ainda,
cabelos endurecidos pelo sal, peles brilhando, amorenadas,untadas de 
protetor solar.
Veja os rapazes, msculos comeando a se desenvolver, primeiros fios de 
barba ainda
invisveis, cabelos queimados pelo rigor solar, corpos molhados e 
salgados como
picanhas prontas para o fogo. Seja sincero: o que os diferencia das 
tribos primitivas que
h milnios corriam por estas mesmas areias, disputando cocos com bandos de
macacos?
 verdade que, nesses milnios, as coisas modificaram-se um 
pouquinho. J no
 preciso subir nos coqueiros, pois humildes habitantes das proximidades 
esto de
prontido, trazendo cocos geladinhos em caixas de isopor e oferecendo 
maos de
canudos para apressar a reidratao. As peles desses rapazes e moas 
tambm j so
diferentes daquelas de seus antepassados, algumas exibindo rebuscadas 
tatuagens,
embora argolinhas penduradas aqui e ali permaneam como recordaes dos 
distantes
avs, um pouquinho s mais primitivos.
         Mas quem est em busca dos confortos da civilizao? Pelo 
jeito, nenhum deles,
deciso perfeitamente apreensvel para quem atentar ao cacarejo das 
risadas excitadas,
aos saltos para alcanar bolas de vlei, aos mergulhos arriscados em 
busca das ondas
maiores e mais perigosas, ao lagartear de uma ou outra garota, 
abandonando-se sobre
esteiras s macroondas do sul, na certeza de voltar  escola com uma cor 
mais mulata,
mais apetitosa para os jovens machos que elas pretendem conquistar com seus
encantos.
         Disseram-lhes que, no tempo de suas trisavs, as mulheres 
usavam luvas e at
vus para proteger a pele dos raios do Sol. Mas as garotas de hoje sabem 
que a moda
mudou: quanto mais chamuscada, mais gostosa.
         Veja ali aquele garoto de cabelo parafinado, volteando soberbo 
sobre a onda,
ps colados  prancha de surfe, sobrepujando o poder das guas como um deus
mitolgico dos mares. Preste ateno ao brilho do olhar daquela menina 
ali, contorcendo-
se para sacar l no alto uma bola forte, difcil de ser defendida. E 
aquela, que acaba de
mergulhar como uma acrobata para aparar o saque? Observe seu corpinho todo
polvilhado de areia, como um croquete que se cobre com farinha de rosca. 
Note a
felicidade do barraqueiro, vendendo gua de coco, sorvetes, sanduches e 
conseguindo
algum lucro fora de temporada. Acompanhe com os olhos aquele casalzinho, 
logo mais
adiante, arriscando-se no meio das pedras mais distantes, mais 
esbofeteadas pelas
ondas, s para encontrar algum refgio mais discreto, onde possam lamber 
sal nos lbios
um da outra, uma do outro.
         Agora d uma olhada para o lado do Rafael. Veja seu corpo 
magro, sua pele
vermelha comeando a levantar-se em bolhas pelo dia anterior na praia 
sem loes
protetoras.
         Meio longe dos diferentes grupos, sentado sob a sombra dos 
coqueiros, braos
enlaando os joelhos, Rafael observa.
         Olha tudo e todos, como olhamos para ele. Veja seus olhos 
atravs dos culos,
olhe para onde eles olham. Para eles, esses cenrios so todos lindos, 
dignos de ser
olhados, desde que, centrada em cada um deles, esteja a figura de Maria 
Rita.
 sempre Maria Rita que os olhos de Rafael procuram. L est 
ela, v?  aquela
no meio do grupo de garotas em volta daquele coco de onde sai um 
canudinho espetado,
um canudinho da paz, sorvido em turnos por todos. L esto elas, rindo e 
comentando
assanhadas, enquanto os olhos de cada uma atiram-se como centelhas sem 
direo, mas
sempre em busca de algum dos rapazes. L esto os olhos de Maria Rita, 
Rafael aposta
que olhando admirada para os msculos bronzeados do garoto de Santa 
Catarina, o da
outra turma, craque no surfe e na paquera.
         Os olhos de Maria Rita procuram em volta? Quem? No importa 
agora. O que
interessa  o olhar de Rafael, fixado na menina. Veja como ele se 
derrete com a risada de
Maria Rita.
         Por causa de quem estar agora rindo to alto Maria Rita, de 
modo to maroto?
O que comenta sua risada? Vai ver alguma piadinha ousada de uma das 
outras meninas,
na certa aludindo a segmentos do corpo do surfista parafinado. Rafael 
olha, anota na
mente, observa cada gesto da menina. Maria Rita, agora apia graciosamente a
mozinha na cintura, corpo meio torcido, numa pose provocante... 
Provocante para
quem? A quem estaria ela tentando provocar? Qual seria o alvo de todo 
aquele charme?
O mais alto de todos, o cortador indefensvel do jogo de vlei?
         Veja como Rafael v: veja os pequenos msculos do rosto da 
menina formando o
sorriso e abrindo as duas covinhas famosas, duas marquinhas delicadas 
como toques de
dedo de criana em massa crua de pastel. Para quem, o sorriso? Para 
aquele garoto
que sai molhado do mar e corre sacudindo a vasta cabeleira no meio de 
outro grupo de
meninas, todas saltitando em risadinhas, fugindo do chuveirinho de 
brincadeira, como se
elas no estivessem ali para se molhar?
         Preste ateno em Rafael. Somados, todos os jovens do 
acampamento de frias
no ultrapassam muito a populao de uma classe normal de primeiro ano 
do curso
mdio, de que faz parte o garoto e... e Maria Rita. Uma pequena 
multido, gente bonita,
carnes frescas, mentes alegres, mas ningum capaz de capturar um segundo 
sequer da
ateno, do olhar de Rafael. Todos no passam de coadjuvantes no palco 
do mundo,
certamente construdo para Maria Rita protagonizar.
         Pescador tem de pescar



         V? Rafael levanta-se e afasta-se dos coqueiros. Est na sombra 
da moita, longe
dos olhos de quem estiver na praia e por acaso procurar. Afasta-se da 
imagem de Maria
Rita, foge do alcance da viso da menina.
         Maria Rita busca ainda com o olhar? A quem? Bom, deixemos Maria 
Rita na
areia, com as amigas, e voltemos a Rafael.
         L vai ele. Venha comigo, vamos acompanh-lo. Interna-se no 
bosque que
margeia a praia. Sem destino? O que procura Rafael? O que h no rosto 
dele? Uma
pequena lgrima, talvez? Ou talvez o resfriado de quem tomou muito sol? 
Sigamos com
ele.
         O bosque j  ralo, h uma picada, por onde se embrenha o rapaz. Os
carrapichos da relva espetam-lhe os ps descalos. Ai! Veja-o erguendo o 
p, apoiando-
se no joelho, sola para cima, para livrar-se do incmodo. Continuemos. 
Cuidado com os
carrapichos.
         Logo adiante, notou? Como uma cortina encerrando o espetculo, 
estende-se
uma rede de pesca. Alm da rede, uma casinha, de taipa muito bem 
esticada. Entre a
rede e a casinha, acocorado, h algum.
         -- Dia, moo...
         -- Bom dia...
 um velho, v? Ou talvez no seja tanto, face crestada pelo 
sol, como uma
ameixa de bolo, mos calejadas, cheias de pequenas cicatrizes pelo 
manuseio da rede,
das linhas, dos anzis, das escamas de peixe, da barra do leme. Dentes 
no mais os h
em sua boca. Mas os olhos... Ah, os olhos! Ainda que com o branco 
injetado de sangue,
eles sorriem boas-vindas.
         -- No quis ficar na praia, no? Aproveitar o mar..
         Note como seus dedos manejam a agulha comprida, consertando 
rasgos da
rede. Trabalham rpido, conscientes, no acha?
         -- Achegue-se, moo.
         Rafael aceita o convite e aproxima-se do homem, observando 
aquela lida como
se assistisse  tecelagem manual de um tapete da Prsia. Os olhos do 
homem saltam da
rede para o garoto, do garoto para a rede, sorrindo sempre, sem parar o 
trabalho nem a
observao.
         -- Fugiu da praia? Por que, hein? Hum... at j sei. Vermelho 
feito polpa de
goiaba. No sabe tomar sol, ? No tem sol l na cidade?
         Rafael sorri de leve, nem responde. O velho ergue os olhos para 
cima, ao falar,
como se o olhar pudesse levar seu chamado para onde ele quer ser ouvido:
         -- Velha! Vem c, vem. Tem visita.
         Da porta aberta surge a mulher. Pele crestada como a do marido, 
vestido j sem
cor, muito limpo, mos eternamente enxugando-se em um avental.
         -- Acho que a visita precisa de trato, velha. Olha s as costas 
dele!
         Os olhos da mulher sorriem igual aos do homem. No tm vermelho 
na crnea.
So puros como os de uma criana.
         -- Virgem! Isso est ardendo, no est? Vem c, meu filho, sei 
como aliviar o
ardido. No tenha cerimnia.  casa de pobre, no repare, mas  morada 
de gente boa.
         Voc j notou que  mesmo de gente boa, no notou? Entrar na 
casa de algum
 como entrar dentro de algum. O interior de uma casa, de um quarto,  
reflexo da alma
de seu ocupante. Quando est em ordem, a alma do morador est em ordem. 
J notou a
baguna dos quartos de alguns adolescentes? Bom, nesse caso no  porque 
suas almas
estejam em desordem, no.
 que esto em constante mutao, em constantes rearranjos, em 
busca de sua
identidade, de sua personalidade final. Ao contrrio do que est escrito 
em nossa
bandeira, no pode haver ordem "com" progresso. Progredir, mudar,  
sempre desarranjar
a ordem anterior, para criar uma nova. Como fazem os jovens. No caso de 
adultos como
estes dois, nota-se que a arrumao do interior da casinha, que as 
folhas de papel de
embrulho cor-de-rosa zelosamente recortadas para servir como paninhos de 
enfeite nas
beiradas das prateleiras, que a limpeza da velha toalha de linleo sobre 
a mesa, que a
imagem da santa cuidadosamente pendurada na parede refletem a paz que 
mora em
suas almas. So almas prontas, felizes como querem ser. Diga-me uma 
coisa: voc se
sente melhor aqui ou em um ambiente de milionrio, faustosamente 
arranjado por algum
decorador profissional? O que reflete um ambiente desses? A alma do 
milionrio ou a do
decorador? Deve ser por isso que os milionrios contratam decoradores: 
quem quer
enriquecer no deve mostrar a prpria alma aos outros.
         A est a mulher enchendo de gua uma bacia de plstico. Veja-a 
dissolvendo
esse p branco na gua.
         -- Isso  polvilho, menino. Santo remdio para os males do sol.
         Sem parar de acarinhar a visita com os olhos, a mulher mergulha 
trapos
limpssimos no lquido branquicento, pastoso. Dobra-os cuidadosamente.
         -- Deite-se aqui, meu filho. Aqui, no banco.
 um banco meio longo, onde Rafael pode estirar-se de bruos, 
deixando as
canelas de fora e apoiando o rosto nos braos. Nota que, sobre a pia, h 
pilhas de
embalagens de po de frma e pacotes de queijo, de salame, de presunto, 
ao lado de
tomates fatiados.
          dali que saem os lanches vendidos aos turistas na praia, 
advinha o garoto. H
uma velha geladeira, bem grande. Na certa onde so guardados os 
refrigerantes
consumidos pelos visitantes, continua Rafael com suas dedues.
         Como uma delicada enfermeira, a mulher espalha os panos 
embebidos na
soluo de polvilho pelas costas de Rafael. Ele fecha os olhos, 
acolhendo o carinho.
         -- Isso... Est fresquinho, no est, meu filho?  s ficar na 
sombra uns dias que
esse ardor passa.
         O marido entra agora. Acomoda-se em uma cadeira dessas de copa. 
Seus olhos
ainda sorriem, felizes de acolher o jovem visitante, contentes por poder 
ser teis.
         Olha o visitante com o mesmo carinho da mulher e aproveita para 
prosear:
         -- Meus meninos nem esto aqui, moo. T tudo na praia, 
vendendo as comidas
da velha. Pra vocs, no ? Para os meninos da cidade, tudo esfomeado. 
Santa fome! 
disso que a gente vive, moo.  disso. A pesca no d mais nada.  jogar 
a rede l longe,
no mar alto, de madrugada, e arrastar para a praia, s pelo costume da 
vida da gente.
Mas o que  que vem? Mais da metade  porcaria arrastada do fundo do 
mar.  lata
velha, garrafa, plstico, pedao de tudo o que os homens jogam no mar, 
isso que virou
lata de lixo. E tudo vem preto, coberto de piche. Peixe mesmo, camaro, 
lagosta, quem
diz que vem? s vezes nem pra encher os baldes da turma toda que saiu de 
noite para o
alto-mar. Viu aquele rasgo na rede? Pois pensa que foi no dente de um 
peixe grande,
desses que sustentam a famlia por um ms? Nada! Aquilo foi uma porta de 
carro.
Imaginou? Uma porta de carro no fundo do mar! Uma lata enferrujada que 
despedaa as
redes dos pescadores. Viver de pesca? Isso no d mais. Se no fosse a 
fome de vocs,
dos turistas, o que seria da gente?
         -- Mas por que ento o senhor fica consertando a rede?
         -- Ora, por qu! Porque eu sou pescador.
         -- Mas, se a pesca no d mais para o sustento...
         -- No importa, Pescador tem de pescar.
         As compressas espalham-se sobre a pele de Rafael, 
transmitindo-lhe um frescor
confortvel, ajudado pela hospitalidade dos donos da casa. O pescador 
observa, feliz com
o resultado:
         -- A velha  boa nisso, moo. Sempre tem polvilho em casa, 
porque menino da
cidade assado desse jeito  o que no falta por aqui. Est gostando? 
Melhorou j um
bocadinho?
         -- Muito melhor, Estou muito melhor. Obrigado.
         -- Ah! Ento aquele olhar comprido, tristinho vai acabar, logo, 
logo! Ah, ah!
         Com o rosto, com o corpo inteiro, a mulher ri:
         -- Tristinho por causa do sol? Ah, velho, nada disso! Isso eu 
sei por causa de
qu. Isso  por causa da outra metade. O menino j virou homem. E j 
escolheu a outra
metade, do jeito que o meu velho me escolheu, do jeito que eu escolhi o 
meu velho.
Lembro como se fosse hoje do teu olho, velho. Do teu olho, quando me 
olhava. Lembro
como se fosse hoje. A menina do olho ficava grande, desse tamanho, como 
se quisesse
me puxar pra dentro. Do mesmo jeitinho desse da. Isso  a cegueira do 
gostar. Um olho
que puxa a figura de quem gosta pra dentro da alma. Um olho que s v 
quem gosta. O
resto nem tem existncia, nem tem!
         O homem ri, exibindo as gengivas sem qualquer vergonha.
         -- Ora, velha, ele t na idade.
         Rafael ergue o corpo e senta-se no banco, agora com o rosto to 
vermelho
quanto as costas, de vergonha:
         -- No, no  nada disso, dona.
         Veja agora a mulher, como uma deusa da sabedoria, tocando a 
ponta do queixo
do hspede:
         -- De que adianta a boca falar diferente do que o olho diz? Se 
juntar o tempo que
todo mundo aqui da vila de pesca esteve na escola, acho que no vai 
chegar nos anos
que voc estudou, meu filho. Mas quem muito viveu, coisas aprendeu. E, 
de olho de peixe
e de olho de gente, a velha aqui aprendeu. Olho de peixe s mostra se 
est fresco, bom
pro forno. Mas olho de gente  diferente. Mostra o que est por dentro. 
Como o teu,
menino. E eu sei que dentro do teu olho, l pra dentro da tua alma, tem 
mulher. Uma
menina bonita, no ? Nessa hora, a menina mais bonita do mundo inteiro, 
no ?
         Rafael nada disse. Mas seu olhar continuou fixado na dona da 
casa, de p  sua
frente, enxugando as mos no avental.
          -- Brigaram? Vocs dois brigaram? Acho que no. Acho que ela 
ainda no  tua.
Por que?
          Observe o jeito do Rafael. Seus lbios tremem, v? Isso quer 
dizer que nem para
si mesmo ele havia perguntado a srio por que Maria Rita ainda no era 
sua. S soube
arremedar a mulher, como um papagaio:
          -- Por qu?
          -- Por que, sim meu filho, foi isso que eu disse: por qu?
          Hesita Rafael. Voc tambm hesitaria numa hora dessas no? 
Como  que
algum desconhecido podia meter-se tanto em sua alma, assim de repente?
          Mas, preste ateno: o garoto no est se sentindo invadido 
pela mulher. Parece
at que ele recebe bem o intrometimento. Afinal, falar de coisas 
pessoais para
desconhecidos, pessoas que a gente nunca mais vai ver na vida,  o 
melhor modo de
desabafar, no ? J notou os bbados? A cada noite de bar, conhecem um 
novo bbado,
que eles certamente substituiro na noite seguinte por outro, e 
desabafam suas vidas
inteiras, todas as suas dores, com mais verdade do que se falassem com 
um analista.
          Rafael, nessa hora, deve estar mesmo com a lgica dos bbados 
e dos
desesperados, pois no procura esconder o que lhe di:
          --  que eu... eu no sou como... como ela gosta...
          As palmas das duas mos da mulher do pescador apiam as duas 
faces do
garoto. Seus olhos lmpidos penetram-lhe o olhar, vo fundo, invadem-no 
suavemente,
aquecem.
          E afirmam:
          -- Voc  como . E do jeito que , gostou dela. Se voc fosse 
de outro jeito, se
fosse outra pessoa, no estaria gostando dela ou estaria gostando de 
outro modo.
          Veja que o nosso Rafael no est aceitando os conselhos da 
mulher do
pescador. Note como ele balana a cabea, afastando o conselho, 
renitente em suas
certezas.
          -- Mas, e ela, dona? O que ela gosta no  de gente como eu 
sou. Como  que
vou...
          Pra de sbito, como se tivesse vergonha do que pretendia 
dizer. A mulher sorri
muito de leve, confiante em tudo o que sabe dessas coisas de amor:
          -- Como conquistar essa garota? Voc tem de descobrir, meu 
filho. Mas no 
ningum mais que vai conseguir. Tem de ser voc mesmo.
         -- Eu? O que a senhora quer dizer com isso?
         Como voc acha que foi a continuao da estranha conversa de 
Rafael com
aquela recm-conhecida? D para imaginar perfeitamente como a discusso 
seguiu da,
no ? Mas como ter essa conversa penetrado a alma do rapaz? Ter 
servido como
remdio para a dorzinha que ele sente?
         Rafael agora volta para a praia. No o percamos de vista. Venha 
comigo.
Cuidado com os galhos baixos dessa rvore, porque seno voc se machuca, 
vamos ter
de voltar para a casa do pescador, pedir para a mulher cuidar do galo na 
sua testa e a
voc acaba virando personagem da histria e a gente vai ficar sem saber 
o que est se
passando com o Rafael.




         A voz de um anjo



         A esto as turmas. Veja: todos eles se acotovelando em torno 
da mesa grande,
no jantar coletivo que  oferecido pela cozinheira do acampamento. No 
deixe sua
ateno ser desviada nem por aquela menina que fica repetindo que no 
suporta ervilhas,
nem por aquele rapaz, cujo prato daria para alimentar uma famlia 
inteira, tal a quantidade
de comida que ele empilhou. Alis, ele no  o nico. Que fome tem esse 
pessoal! Mas
deixe de lado esses detalhes to comuns. O que importa  no perder 
Rafael de vista. L
est ele. Foi o ltimo a chegar e est no fim da fila, com seu prato na 
mo. Note que ele
nem olha para onde esto as couves e as cenouras, passa reto pelo peixe 
recheado, mas
veja que ele se serve de frango e um pouco de batatas fritas.
         Todos brincam com todos, parecendo ter trazido a alegria do sol 
para dentro do
salo. Veja como a cozinheira, acostumada com algazarras como essa, 
circula em volta
deles,  espera de elogios pelo tempero do feijo.
         Um deles brinca com o surfista, cujo verdadeiro nome parece no 
ter importncia
para os novos companheiros de acampamento:
         -- E a, Catarina? Voc vai comer tudo isso, ? No tem comida 
em Santa
Catarina?
         Os olhos de Rafael esto baixos, fixos no prato, pensativos. 
Coube-lhe a ponta
do banco comprido, onde j se sentam seis deles.
         Ei, quem  que se levanta do lugar onde estava e se aproxima 
dele trazendo o
prprio prato j na metade e pede-lhe um cantinho a seu lado?  Maria 
Rita, v?
         -- Oi, Rafael, tem lugar pra mais uma?
         O rapaz empurra como pode o colega do lado, abrindo espao para 
a menina.
Seu corao deve estar acelerado, no  verdade? O que estar pensando 
ele? Bom, 
claro que voc notou como ele parece mais corado agora, no?
         Os olhos da menina escorregam de lado, encontrando o rosto de 
Rafael.
         -- Onde voc se meteu? A turma toda andou te procurando...
         Sorri de novo, o Rafael.  sempre assim, quando no sabe o que 
dizer. E ele
raramente sabe...
         -- Hum...? Andou, ?  que... hum... voc quer uma batatinha?
         -- Obrigada... Pois , faltava um para o vlei...
         Faltava? Ora, mas quando ns dois olhamos, os dois times 
estavam completos,
no estavam?
         --  que... o sol, sabe? Eu me queimei muito ontem... e bom, 
esqueci a loo...
         -- U? Por que voc no disse? Eu tenho uma ainda no comecinho. 
Quer que eu
passe em voc amanh? Afinal, amiga  pra essas coisas!
         "Amiga!" , deve estar Rafael pensando nesse momento, embora 
tudo o que se
veja nele  o sorriso, sua alternativa  desorientao.  claro que 
amiga, sim, avalia ele,
pois os dois estudam na mesma escola, na mesma classe, desde o pr-primrio.
Pequenos, brincaram e brigaram juntos. Em seguida, como acontece com 
todo mundo,
andaram meio separados, grupos de meninos e meninas segredando-se 
mutuamente.
Aos poucos, mais um tempo, e os dois gneros voltaram a aproximar-se, a 
tocar-se, a
misturar-se. Dentro da tribo maior, formaram-se outras pequeninas, 
ajuntadas pela
convergncia de interesses. Maria Rita e Rafael inscreveram-se na mesma 
subtribo, um
grupo de cinco ou seis que raramente se largava, quer nos intervalos das 
aulas, quer nas
festas, quer nas idas ao shopping, quer em feriados de praia, como este.
         Ora, olha eu a explicando o bvio: disto voc sabe muito bem. 
No  assim com
a sua prpria turma? Vocs vivem um para o outro, acertei? E aposto que 
vo continuar
amigos para sempre, pode ter certeza. Assim como Rafael e Maria Rita, 
que s poderiam
mesmo ter se tornado amigos. Mas note que a expresso de Rafael se 
tornou sombria,
pois seu corao gostaria de um pouco mais de Maria Rita. Um pouco mais 
do que
simplesmente "amiga". Alis, o corao do garoto queria tudo de Maria Rita!
         A menina apenas cutuca os alimentos com a ponta do garfo. 
Rafael, sem
coragem de comer, como se essa fosse uma tarefa dificlima.
         Preste ateno nas covinhas no rosto de Maria Rita. Pensa que 
Rafael consegue
comer, olhando-as de lado, vendo-as formar-se e dissolver-se na 
superfcie das faces da
garota, no ritmo de suas palavras, de seu pequeno sorriso?
         Vamos nos aproximar, at porque ningum aqui nos notar, 
ocupados que esto
uns com os outros. Depois de um dia inteiro de mar, de praia, de 
acmulos to
exagerados de hormnio circulando nos corpos desses meninos e meninas, 
eles esto
apenas ocupados uns com os outros. Quem vai notar a gente?
         Espalham-se agora pela varanda mal iluminada por uma lmpada 
amarelenta,
sentam-se em degraus, disputam as poucas redes, sem parar de rir, de falar
excitadamente, de fazer pequenas gozaes uns com os outros. Numa das 
redes, um
casalzinho afunda-se, adorando a oportunidade de embrulhar-se em panos, 
corpos
colados, ferventes.
         Ser o mesmo que escapou para os rochedos, hoje  tarde?
         O cu continua sem nuvens e a lua nova permite que as estrelas 
exibam seu
esplendor, sem as luzes da concorrncia. Ali, numa praia como aquela, ao 
contrrio das
noites tristes das cidades, as estrelas no tm vergonha de exibir sua 
nudez.
         Rafael apia os cotovelos no balastre da varanda. Seu olhar 
perde-se na
direo do mar, manto negro salpicado de prata, espelho das estrelas. 
Atrs dele, no meio
do grupo, aparece um violo. Uma voz feminina, quase infantil, inicia 
uma cano de
amor. Um abrao quente, apoiando-se tambm no balastre, encosta-se ao seu.
         -- Um dia inteiro de praia d uma lombeira, no d?
         Assim, de costas para a pobre iluminao da varanda, os dentes 
de Maria Rita
brilham s com a luz das estrelas, refletidas pelo mar.
         Rafael deixa tambm que as estrelas brilhem em seus dentes, 
sorri, murmura
algo, em concordncia, ou como algum que adoraria derramar-se num 
discurso, mas
que sente as palavras entaladas na garganta, feito um ossinho do frango 
que ele mal
comeu no jantar.
         Lembra-se dos conselhos da mulher do pescador? Aquele sobre o 
olhar? Ento
vamos procurar as pupilas de Maria Rita. Puxa, esto dilatadas, no 
esto? Mas isso
acontece sempre quando a iluminao  pouca. No d para ver os olhos de 
Rafael, que
esto baixos. O que se dilata so suas narinas, aspirando... o que? A 
brisa leve, delicada,
salgada de mar? Ou perfume do corpo recm-banhado de Maria Rita? Bom, 
nem d para
saber. Os dois cheiros so de embriagar qualquer um. Ainda mais o Rafael...
         Atrs dos dois, a voz da jovem cantora j no est s. As 
msicas escolhidas so
conhecidas de todos e um coro j se formou. Para mim, parecem vozes de 
anjos, no
acha? Hum? ... a maioria  de anjos desafinados, tenho de concordar com 
voc.
         Algum chama. Qual deles? Nem d para notar direito nessa penumbra.
         -- Maria Rita! Vem c. Canta aquela.
         Isso voc no sabia. Maria Rita  uma voz adorada nessas 
reunies. Memria
incrvel, sabe todas as letras da moda e at mesmo algumas antigas, to 
romnticas, to
deslavadamente apaixonadas que nunca saem de moda. Porque parece que o 
amor est
sempre na moda, do jeito imutvel que ele tem de ser.
         A menina descola o brao do corpo de Rafael e aproxima-se do 
violonista.
Ajoelha-se no cho e nem precisa perguntar qual  "aquela", pois os 
acordes de
introduo vm como resposta.
         Rafael gira o corpo, dando as costas para o mar. L est Maria 
Rita, olhos fixos
no rosto do violonista, soltando a pureza de sua voz. No incio, todos 
os outros deixam-na
cantar sozinha, permitem que os versos flutuem no meio deles e 
injetem-se por suas
veias, misturando-se com seus hormnios.
         Ah, note como Rafael observa o olhar da menina, que no se 
desvia do rosto do
colega violonista, que agora comea a murmurar a letra da cano junto 
com ela. Logo,
outras vozes juntam-se timidamente s deles e o coro se refaz. Ah, note 
a tristeza de
Rafael, a nica voz que permanece muda. Perceba o piscar de suas 
plpebras levemente
unidas. Ah, por que Maria Rita, ainda por cima, pode ter uma voz como 
esta? O que falta
para que asas surjam das omoplatas da garota e faam-na alar-se aos 
cus? Bem, para
Rafael, no falta nada.
         Junto com o violo, algum tinha aparecido com a garrafa 
proibida. Um lquido
marrom-claro, pastoso, doce. Deve ser batida de amendoim, o que voc acha?
         A garrafa corre de mo em mo, de boca em boca, e em pouco 
tempo as vozes
dos cantores desafinados tornam-se mais altas, mais descontradas. A 
garrafa esvazia-se
e logo surge outra, dessa vez com um contedo amarelado. Deve ser 
maracuj. Bem,
misturado com algo bem mais quente do que maracuj.
         O Catarina parece o mais animado de todos, sacudindo sua 
cabeleira de leo.
Foi responsvel pelo consumo da maior parte do lquido marrom e est com 
a outra
garrafa na mo. Cuidado! Puxa, veja-o tropeando nos degraus. Quase 
caiu! No fosse
Rafael que o apia, esforando-se para reequilibr-lo, ele teria rolado.
         Pelo jeito, equilibrar um bbado  uma tarefa ingrata e o 
rapago cambaleia
degraus abaixo. No, nem tente ajudar o Rafael. Deixe que ele j 
conseguiu sustentar o
colega, que balbucia, tentando fixar os olhos vagos no rosto do garoto 
abraado a ele.
          -- Voc  meu amigo... Voc  meu amigo de verdade. Pode 
deixar, pode deixar
que eu estou bem... Estou bem... S quero respirar um pouco de ar...
          Cambaleiam juntos pela areia, afastando-se das vozes que 
retomam as canes.
A noite esfria bastante nessa poca do ano, no? A brisa que vem do mar 
est um
tantinho mais do que agradvel. Est at um pouco fria. Voc no trouxe 
um agasalho,
nem uma malhinha sequer?
          As vozes na varanda esto distantes, suaves, fazendo dueto com 
o farfalhar dos
coqueiros, balanando-se na escurido.
          De repente, veja: o garoto alterado derreou-se, procurando a 
solidez do cho, e
no h fora num garoto como Rafael para impedir seu intento.
          -- Voc  meu amigo, meu amigo... Como  o seu nome?
          A brisa do mar revoluteia os cabelos cacheados do surfista. 
Sua cabea balana-
se ritimadamente, embalada pelo lcool que j ocupou seu crebro.
          -- Voc  de So Paulo?... Eu sou de Santa Catarina...
          -- . Eu sei. Voc j est melhor?
          O surfista nem consegue ouvir o novo amigo. Seus olhos mal se 
fixam, mas
esto felizes:
          -- Quanta garota gostosa! Quanta, meu amigo... Ah!  fcil 
conquistar mulher...
Voc sabe conquistar mulher?
          Rafael  mesmo de poucas respostas, mas, se no fosse, essa 
pergunta  que
ele no iria responder.Mas o Catarina parece s querer ouvir sua prpria 
voz enrolada
pela bebida:
          --  fcil...fcil...
          Algum est agora junto de dois. Eu, voc e o Rafael j 
percebemos que  Maria
Rita, mas o surfista continua falando sem reservas:
          -- Todo mundo pensa que mulher  difcil, mas no ...ah, no ...
          A menina ajoelha-se na areia. Seus olhos brilham ao luar, 
penalizados com a
condio do surfista embriagado. Veio para ajudar? O que  que voc 
acha? Por que 
que Maria Rita veio atrs do bbado e de Rafael?
          -- Conquistar... mulher...  fcil. Vou contar como se 
faz...Pra se ganhar mulher,
ela tem sempre de dizer sim...Olha s, nunca comece com perguntas que 
podem ser
respondidas com um "no". Viu? . Se ela se chama Adriana, por exemplo, 
pergunte pra
ela: "Seu nome  Adriana?". Ela vai te responder "Sim". Da, se estiver 
fazendo frio,
continue: " Esta frio, no?". "sim" de novo. E v por a afora, at a 
hora de perguntar se
ela est a fim de ficar com voc. Como ela j estava dizendo " sim" o 
tempo todo, vai ser
difcil dizer que no quer...fcil...muito fcil...mulher  fcil...
            Apesar da escurido, d para perceber que Maria Rita deve 
estar pensando que
poucas garotas haveriam de cair numa conversa to pouco inspirada como 
essa, tenha
certeza.
            -- Mas com Adriana no deu... no deu... Eu fao tudo 
direitinho, tudo como
deve ser feito, e ela diz "no"...Adriana...
            Puxa, no quer dizer que essa Adriana no era apenas um exemplo?
            -- Por que no deu certo com a Adriana?... Por qu?
            O rapaz passa para o segundo estgio de bebedeira, o das 
lgrimas. Abraa-se
ao corpo de Rafael e chora como uma criana.
            A mo de Maria Rita, procurando os cabelos do Catarina, para 
consol-lo,
encontra a mo de Rafael, j ocupada em confortar o pobre embriagado.
            Aos poucos, o corpo do rapaz derreia-se e suas palavras de 
tristeza perdem o
sentido, j so murmrios. Rafael e Maria Rita j esto de mos dadas 
sobre a cabea do
quase adormecido.
            Maria Rita diz, bem baixinho:
            --  melhor levar esse garoto para dentro, Rafael. A gente 
no pode deixar ele
aqui, dormindo na areia.
            Com esforo, os dois conseguem levantar o corpo pesado do 
rapaz. Abraam-no,
um de cada lado, e  uma dificuldade enorme faz-lo andar na direo da 
casa.
            -- Meu amigo... Voc  meu amigo... Adriana... Ai, 
Adriana...Voc  a Adriana?
Quem  voc? Por que voc no me quis, Adriana...? Eu sou s seu amigo 
mesmo?
            No, no. No tente ajud-los. Pode deixar que os dois do 
conta do recado.
Veja, j estamos quase na varanda. Alguns dos colegas percebem o que est
acontecendo e correm para dar uma mo. Vamos junto.
            Pobre Catarina! L vai ele, literalmente carregado para o 
alojamento. Dormir
como uma pedra, na certa sonhando com Adriana.
            Maria Rita e Rafael ficam para trs. Ss agora. Os olhos da 
menina brilham,
sorrindo para ele. Seu rosto se aproxima e Rafael est sentindo um beijo 
no rosto.
            "Um beijo de boa-noite... Um beijo de amiga!", deve ele 
estar pensando, mais
uma vez decepcionado. O Catarina, em sua ingenuidade de bbado, havia 
contado a
prpria histria de Rafael. "Amiga!".
          Eu estou com mais pena do Rafael do que do Catarina. E voc?




          O fabuloso Gato



          Venha comigo. No faa barulho, porque todo mundo ainda deve 
estar dormindo,
o dia mau amanheceu. Voc dormiu bem? Ou mal conseguiu pregar os olhos, 
como eu,
pensando no pobre do Rafael? Ento vamos espiar a solido do garoto.
          Veja o pobre aqui, sozinho no banheiro. No tenha medo que ele 
nem vai notar a
gente, absorvido como est com seus problemas. Olha-se no espelho. 
Analisa-se.
Perceba o que ele pensa, note como suas desesperanas aumentam. Ele se 
acha feioso,
desengonado, sem jeito. Tira os culos, olha-se dentro dos prprios 
olhos. Suas certezas
esto confirmadas. Maria Rita gosta mesmo  desses surfistas com cabelos 
parafinados,
como os do Catarina, de msculos salientes, como os do cortador do 
vlei, e altos como
coqueiros, como aquele moreno de outra turma. E ele? Peito enfiado, para 
dentro, d at
para pegar as clavculas, como se pega o cabo de uma colher. Cabelo 
escuro, difcil de
pentear, altura... Igual  dela! Como Maria Rita iria apoiar o rostinho 
em seu ombro? E sua
pele, ento? Bem, agora est queimada, mas haver de descascar-se e 
voltar quela cor
de paulistano, indefinvel. Ainda por cima, est com uma bela espinha 
bem no queixo. J
foi espremida, mas piorou ainda mais, deixando uma enorme mancha 
arroxeada, horrvel!
Ah, ele pensa que deveria ser moreno, bronzeado, musculoso, ou loiro, 
alto, com corpo
de nadador! Seus olhos deveriam ser negros como os daquele ator da tev, 
ou azuis, ou
verdes, ou...
          Coitado do Rafael! Como viver assim, descontente consigo mesmo?
          A mulher do pescador havia dito que ele mesmo teria de 
conquistar Maria Rita,
da forma que conseguisse. Mas, como? De que modo conquistar essa garota? 
Como
conquist-la, sendo ele do jeito que ?
          Ah, voc est com pena, emocionado, logo vi! Sabe? Eu tambm 
estou. O que 
que a gente pode fazer? Deixar o menino desse jeito, sofrendo assim, 
desesperanado
assim? E que tal se agente ajudar? Hein? , isso mesmo.
          A gente bem que pode dar uma mozinha para ele. No  difcil. 
Vamos l. Como
 que voc acha que ele deve ficar? Hum...Bem, ele deve crescer ainda um 
bom palmo
nos prximos dois anos, mas pode fazer isso agora. Pronto. J est mais 
alto do que o
cortador do vlei. Foi muito? , no queremos um piv de basquete. Vamos 
tirar um
pouco. Assim ficou melhor mesmo. E os cabelos? O que voc acha de 
faz-los louros,
parafinados, com manchas revoltas como as do surfista de Santa Catarina? 
Os msculos,
vamos aument-los, arredond-los, mas sem exageros, no ? Um pouco 
mais? O que
voc acha? Chega, no ?  isso. E os olhos? O que voc acha de azul? 
Bom, verde 
melhor,  mais raro, e ele est certo de que Maria Rita prefere coisas 
raras. E vamos
substituir essa pele vermelha, cheia de bolhas, por uma pele curtida, 
bronzeada, desse
jeito. Que tal? Est bom assim? Ah, que bom que voc me lembrou: vamos 
apagar essa
marca de espinha do queixo dele. Por fim, substitumos os culos dele 
por um par de
culos de sol, importado. Pronto! Que tal?
         Ah, ele gostou, gostou sim, veja o jeito dele. Veja como ele 
sorri para si mesmo
diante do espelho, como est feliz! Era exatamente isso o que ele queria 
para conquistar
Maria Rita. Agora ele sabe como conquistar essa garota. Agora ele est 
certo que pode
conquistar Maria Rita. Faltou alguma coisa? Ah, j sei,  melhor ele 
aparecer de moto,
uma moto vermelha, dessas bem vistosa e barulhentas, que  para chamar a 
ateno.
Que garota haveria de resistir a uma moto dessas?
         Ah, nem d para agentar a felicidade do rapaz!  bom a gente 
se sentir feito
fada madrinha, ajudando um tipo moderno de Cinderela, no ? As fadas 
madrinhas so
imprescindveis: como  que a Cinderela iria conquistar um prncipe rico 
daquele vestida
de andrajos, descala, e ainda por cima com a cara suja de cinzas? Vejo 
que voc est
to satisfeito quanto o Rafael. Valeu a pena, no?
         Agora vamos deixar ele sair, para aparecer logo mais na praia, 
como um novo
banhista. No falta mais nada, no ? O qu? O nome?  claro, temos de 
mudar-lhe o
nome. Ele vai se chamar... deixa ver.... hum.... Guilherme est bom?
         Vamos para praia. A turma j acordou naquela baguna de costume 
e hoje 
domingo, o ltimo dia do feriado prolongado. Caf da manh j devorado, 
biqunis,
cales e mais j esto nos corpos, pranchas de surfe, bolas de vlei, 
raquetes de tnis
de praia, redes, guarda-sis encontrados. L vm ele correndo, rindo, 
brincando, como
sempre. Passam loes protetoras nas peles, atiram-se nas guas do mar, 
ainda frias da
noite. As meninas do gritinhos ao sentir o choque trmico das ondas 
geladas, aquele l
prepara-se para dar um caldo numa amiga, est tudo como deve estar.
         Mas alguma coisa mudou. Ah, ns mudamos as coisas!
         O rudo estranho de uma motocicleta anuncia a chegada de 
Guilherme. Que
rapago ns construmos! Voc est at sentindo orgulho, no est? Veja 
como todos
param o que estavam fazendo para admirar o recm-chegado.
         Ele torce o acelerador da moto parada, como um co que late ao 
invadir um
territrio j ocupado por outros machos. Est sem camisa e o sol 
arranca-lhe tons de
bronze dos ombros. Agora, j cercado por vrias garotas, o toque final: 
ele tira os culos,
revelando aqueles olhos verdes, de tom raro, que ns planejamos.
         -- Eu sou o Guilherme.
         Pronto. Rafael estava certo. Como Guilherme, ser fcil 
conquistar Maria Rita. O
que no est sendo fcil  afastar a quase dezena de outras meninas que 
o cercam.
         Uma j lhe estende um refrigerante depois, de provocadora, ter 
dado um bom
gole no gargalo.
         De modo indireto, pretende que sua saliva se misture com a do 
recm chegado,
antes que outra garota ganhe a primeira ficada com o fabuloso gato. 
Perguntas e
comentrios nervosos vm de todos os lados: de onde voc , mas que moto 
linda, quer
que eu passe loo protetora nas suas costas, vai ficar aqui no 
acampamento, posso dar
uma volta na sua garupa, quer gua de coco, voc me ensina a surfar, 
olha pra mim pelo
amor de Deus!
         Mas os olhos verdes de Guilherme j descobriram que Maria Rita 
no faz parte
do grupo de boas vindas. Onde ela est?, Pergunta seu olhar.
         Em volta, olhos masculinos quase agridem o recm-chegado, 
inveja pura. Mas
nada disso o perturba. Nem os assdios, nem as repulsas. H s uma 
imagem, uma
silhueta, que os olhos verdes desejam descobrir.
         Olhe, l esta ela, meio longe e...Bem, vamos pular o dia? Com 
esse sol, no h
clima para o que Guilherme pretende, no ? Saltemos para a noite, uma 
noite igual  de
ontem, com a mesma ausncia de lua, com as mesmas estrelas polvilhando a 
capa
escura do cu. O qu? Voc acha que com lua cheia fica melhor? Pois 
vamos de lua
cheia. A lua, enorme em sua circunferncia, azulava o branco da areia e 
prateava as
folhas dos coqueiros, que continuavam a se roar, excitados, danando ao 
sabor da brisa
do mar. Est bom assim o clima? Ento continuemos. Aqui esto Guilherme 
e Maria Rita,
sozinhos, sob o luar. So duas formas elegantes, prximas, quase juntas, 
isoladas do
resto do grupo que ainda est l na varanda, meio distante, cantando 
docemente para
fazer o fundo musical adequado para o que ir se passar. Provavelmente o 
Catarina no
est confortvel entre eles, ainda abalado pelos efeitos da enorme 
bebedeira que ontem
ns demos nele.
           Os olhos de Maria Rita erguem-se para o rosto do garoto. 
Tudo, olhos e dentes
de sorriso, brilham como prolas de admirao pela beleza de Guilherme. 
O sorriso dele 
de arrasar, no lembra nem de longe o sorriso acanhado de Rafael. Sua 
voz -- que bela
voz ns demos para ele! -- sussurra macia, grave, envolvente, como se o 
rapaz tivesse
cordas de violoncelo na garganta.
           Mas... o que est acontecendo? Por que voc no previu isso? 
Como? A culpa 
minha? Mas ns planejamos tudo to direitinho! Chegue perto e oua: sem 
parar de sorrir,
educada mas firme, a voz de Maria Rita diz...
           -- No.
           O verde olhar de Guilherme se arregala, to surpreso quanto 
eu. No?! Como
no?
           -- Mas, Maria Rita, voc no quer ficar comigo?
           -- No, Guilherme.
           -- No d pra entender, Maria Rita. Voc no me acha bonito?
           Os olhos da menina o reavaliam, esperam s um pouquinho, e 
voltam com o
resultado do exame:
           -- Bonito? Puxa...  claro que sim. Voc  o garoto mais 
bonito que eu j vi na
vida.
           -- E ento? Voc no quer o garoto mais bonito que j viu na 
vida?
           -- Acho que no, Guilherme.
           -- Ora, eu sei que voc no  uma dessas quadradinhas, 
beatas. E eu sei
tambm que... quer dizer... eu gostaria de saber se voc est firme com 
algum outro e por
isso...
           Maria Rita o interrompe, tocando-lhe os lbios com a pontinha 
dos dedos, e sorri,
com segurana no que diz:
           -- No, nada disso, Guilherme.  que eu gosto de algum...
           "De algum?!", deve estar pensando Guilherme, com o corao aos
sobressaltos. "Ah, s pode ser o... o Catarina? , pode ser... Ela no 
veio correndo, ontem
 noite, cuidar da bebedeira dele? Ou talvez no. Ser que ela conhece 
algum que eu
no sei? Ser....?" E resolve atacar de novo, usando comparaes:
           -- Algum? Quem  esse algum? Ele  mais bonito do que eu?
           Maria Rita sorri de um jeito superior, como se falasse com 
uma criana que no
entende as coisas. Como um homem pode entender o corao de uma mulher?
           -- Mais bonito? No...Mas ele tem um jeito que... nem sei 
dizer direito... Um
rosto...
            -- Ele  mais forte do que eu?
            -- No, nem um pouco.  at magro. S que tem assim uma 
sensibilidade que
me d uma ternura...
            -- E os olhos? E os cabelos? Ele por acaso tem os olhos 
verdes, raros como os
meus?
            -- No, nada disso. Mas os olhos dele parecem que s olham 
para mim, que se
abrem quando eu chego perto. Ai, parece que eu caibo inteirinha dentro 
deles!
            -- Mas...
            -- E o sorriso dele, ento? S sendo mulher para compreender 
o sorriso dele.
Ele  acanhado,  verdade. Mas eu no tenho pressa. Nosso dia vai 
chegar. H muito
tempo eu espero pelo Rafael.
            "Rafael?!"
            O qu? Voc j previa isso? ... eu dei uma bola fora. Fui 
acreditar nos temores
do Rafael e acabei estragando tudo. O que vamos fazer agora? Ei, voc 
no vai me
deixar sozinho nesse sufoco! Quer dizer que o problema  meu, ? Ufa! 
Est bem, vamos
nos lembrar do que disse a mulher do pescador:
            -- Como conquistar essa garota? Voc tem de descobrir, meu 
filho. Mas no 
ningum mais que vai conseguir. Tem de ser voc mesmo.
            Preste ateno que agora eu vou corrigir o meu erro. Vou 
devolver o Rafael 
altura que ele tem, seu corpo  magreza elegante que sempre foi dele, 
dou de volta o
sorriso tmido mas franco, os olhos fundos de tanto olhar para Maria 
Rita, at a pele
ofendida pelo sol vou pr de volta. Est bem, a mancha da espinha no 
queixo faz parte
dele, eu sei. L est ela no lugar. At j cicatrizou mais um pouco, no?
            Pronto. A esto eles abraados, ao luar, envoltos pelo som 
da cano de amor a
distncia, pelo esfregar-se das folhas dos coqueiros, pelo espalhar-se 
das ondas
avanando e recuando sobre a areia.
            Veja. Na silhueta que conseguimos contra a luz do mar, as 
cabeas de Rafael e
Maria Rita juntam-se no beijo molhado, intenso, que o amor dos dois 
tanto esperava.
            Vamos embora. Vamos deixar que os dois continuem sozinhos
sua histria de amor.
